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Fama '''cárcere privado''', inveja do Marshmello, saudade do futebol raiz: a vida de Gustavo Mioto

Ao G1, cantor fala de começo de carreira impulsionado por pai contratante de shows, compara letras do sertanejo com aula de filosofia e diz que rejeição de roqueiros é natural.

 
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Gustavo Mioto gravou, no mês passado, DVD em Fortaleza com participação de Xand Avião e Wesley Safadão.

Mas o maior hit deste cantor paulista de 22 anos não tem convidados: "Solteiro não trai" soma mais de 140 milhões de views no YouTube e entrou no top 10 brasileiro de 2019 no Spotify.

Gustavo teve um começo de carreira mais fácil do que o de outros sertanejos. Quando surgiu, em 2015, ninguém entendeu como aquele rapaz de 18 anos havia conseguido lançar música com participações de Anitta, Luan Santana, Gusttavo Lima, Cristiano Araújo, Jorge & Mateus...

Ele é filho de Marcos Mioto, um dos maiores contratantes de shows sertanejos do Brasil. O DVD foi gravado na cidade da família, Votuporanga (SP). Um pouco por ter acompanhado os bastidores das turnês de outros sertanejos com o pai, Mioto fala ao G1 com serenidade sobre qualquer assunto.

Fala que a fama é um "cárcere privado" e diz que teve a ajuda do pai no começo, mas agora tem que correr por conta própria.

Mioto fala das letras do sertanejo, da rejeição de fãs de rock, de ansiedade e da saudade de jogar futebol raiz, "rasgando o pé no chão".

Os desabafos de sertanejos foram tema do podcast G1 Ouviu. Ouça acima.

Gustavo Mioto grava DVD em Fortaleza — Foto: Christopher Bueno/Divulgação Gustavo Mioto grava DVD em Fortaleza — Foto: Christopher Bueno/Divulgação

Gustavo Mioto grava DVD em Fortaleza — Foto: Christopher Bueno/Divulgação

G1 - Você gosta de ser famoso? Pergunto isso porque tem muito artista, principalmente sertanejo, que reclama da fama...

Gustavo Mioto - Eu acho que todo mundo vai sentir isso né. Eu sempre gostei, eu sempre achei muito bom o sucesso e sempre tive medo da fama. Eu acho que a fama é um cárcere privado. Então, acho que todo mundo vai te falar isso.

"A vida perfeita talvez seja a vida do Daft Punk ou do Marshmello, que usam máscaras. Eles fazem muito sucesso na carreira e tudo mais, mas tira a máscara e ninguém sabe quem é, né? Então, acho que isso é uma certa liberdade. Você dá menos a sua cara a tapa para o povo, sabe?"

Toda escolha implica perda, né? Então, acho que a gente tem que abrir mão de alguma coisa. Eu sinto muita falta de poder jogar bola na rua, de poder ir no clube, de poder jogar tênis. Poder andar de bicicleta na rua. Já aconteceu de eu conseguir alugar, por exemplo, um mini campinho na cidade que a gente vai tocar. E aí eu consegui jogar uma bola com a equipe. Isso acontece direto, mas eu sinto falta do raiz mesmo, sabe? De estar lá no interior descalço na rua rasgando o pé no chão.

G1 - Qual artista está na sua playlist e eu vou ficar surpreso quando souber que ele está lá?

Gustavo Mioto - Eu sempre fui muito eclético, né? Desde quando eu tocava em banda de baile, eu tive que aprender a ouvir de tudo. Eu gosto muito de Abba, por exemplo. Eu gosto de Charlie Brown, de Capital. Eu comecei a tocar guitarra por causa do John Mayer, sou muito fã do Ed Sheeran. Sempre gostei muito da parte do rock...

G1 - E porque você acha que tanta gente que gosta de rock diz que odeia sertanejo? Por que você acha que existe essa rejeição?

"Tem essa rejeição por uma questão de gosto mesmo. Assim como tem gente que não curte o rock muito pesado, vai existir o cara que não curte a música mais melódica também, a música que é um pouco mais sentimental, como é o sertanejo. O próprio povo que gostava de rock falava mal do emo, assim como o sertanejo raiz fala mal sertanejo universitário."

Sempre vai ter alguém com um gosto diferente, não adianta a gente achar que só por que o sertanejo toca mais, ele vai agradar todo mundo. Não vai ser assim, né? Esse preconceito sempre via ser assim. A gente não tem que agradar todo mundo, não.

Anitta participa de 'Coladinha em mim', de Gustavo Mioto — Foto: Reprodução/YouTube/Gustavo Mioto Anitta participa de 'Coladinha em mim', de Gustavo Mioto — Foto: Reprodução/YouTube/Gustavo Mioto

Anitta participa de 'Coladinha em mim', de Gustavo Mioto — Foto: Reprodução/YouTube/Gustavo Mioto

G1 - Muita gente não sabe que você não está sempre vivendo o que você está cantando. Você sente que tem fã que pensa que você está meio que interpretando um personagem?

Gustavo Mioto - Existe isso, sim. Mas acaba sendo natural. Se você canta uma música sobre ser solteiro, a galera já acha que você está cantando pra ele, que é como ele. A gente tem que ver o que as pessoas esperam ouvir... Elas têm que ver a letra e pensar "Porra! É mesmo! Eu não tinha pensado nisso".

"É como a gente assistir uma aula de filosofia, sabe? Quando a pessoa consegue traduzir em uma frase um pensamento que você tem na sua cabeça, meio abstrato. Eu acho que a gente cria meio que gritos de guerra dentro das músicas."

G1 - O seu começo de carreira foi diferente, já gravando com Luan Santana, Gusttavo Lima, Anitta e muita gente, de cara, porque seu pai é um dos maiores contratantes de shows do Brasil. Como ser filho dele, um cara que todo mundo no meio conhece, tornou as coisas mais fáceis pra você?

Gustavo Mioto - Pois é, na real os feats que aconteceram na minha carteira realmente vêm boa parte por meio da carreira dele. Principalmente lá no começo, quando a gente ainda não tinha nenhuma música indo muito bem nas rádios e tal. Depois teve "Impressionando os anjos", com música rodando muito bem e tal... Mas antes, realmente, muita coisa veio através dele. A galera toda [da indústria do entretenimento] me conhece desde muito novo, né? Comecei a viajar com ele dede muito cedo.

Eu acho que esse lance de "todo mundo conhecer ele" é um pouco relativo. A galera do meio, do show business conhece. Mas a galera que fica lá embaixo, que compra o ingresso e fica com a lanterna para cima, não sabe quem ele é. Então, acho que é tipo uma via de mão dupla, né? Ao mesmo tempo que algumas portas estão abertas sempre, outras não estão. A maioria que está aberta e eu vou ter que segurar aberta. Cabe a mim sabe usar isso aí.

G1 - Você está cantando bem melhor do que antes. Você vem fazendo aula, como é sua rotina com fono, professor de canto?

Gustavo Mioto - Eu faço aula, né? Faço também fono e tudo mais. Mas eu acho que a confiança vem da estrada, né? Você vê as pessoas realmente querendo te ver. Aí você se sente mais à vontade para expressar. Faz parte ter essa confiança, sim. Você vê as pessoas cantando suas músicas e elas começam a acreditar no que você quer escrever, no que você quer cantar. Então, você começa a ter mais confiança em si mesmo.

G1 - Estamos ouvindo muitos relatos de ansiedade entre os cantores. Muitos culpam a agenda lotada de shows... Como você lida com isso?

Gustavo Mioto - Olha, eu acho que a ansiedade é o mal do século, né? Eu acho que todo mundo tem vivido muito nessa de correr com as coisas. Agora, ainda mais porque a mídia está muito rápida... Então, tem que escolher o repertório de DVD, escolher mais 15 músicas... A ansiedade já está meio implantada automaticamente no nosso dia a dia, né? E se engana ou mente muito quem fala que não surta.

É impossível eu te dizer um nome de um artista que não tem problema mental de vez em quando, que não tem um defeito. Acho que são 100%. No meu tempo de vida, eu nunca vi ninguém que pelo menos um dia não tenha falado: "hoje foi foda". Dá uma apertada [no peito], você quer sair correndo.

Gustavo Mioto investe em sertanejo pop aos 18 anos

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G1 - Mas o que você faz para tentar conter essa ansiedade?

Gustavo Mioto - A gente tenta controlar, né? Eu tento voltar para casa para ver a família. E eu levo meu violão para a cama, para o quarto do hotel... Fico ensaiando, fico estudando [música], então tem que achar uma forma de terapia para te distrair.

Tenho um lance de não fazer mais do que 25 shows por mês. Se não fizer isso, a gente viaja 30 dias e vai tudo no automático. Parece que só tiram a gente da gaveta, colocam na gaveta, tiram da gaveta, colocam na gaveta... Acho que isso é muito perigoso e prefiro viver mais. Tenho essa exigência aqui em casa.

G1 - Você falou sobre a necessidade de hoje lançar cada vez mais músicas e acompanhar a performance delas no YouTube, no Spotify. Você vê muito esses relatórios?

Gustavo Mioto - Pois é, esse negócio eu aprendi há pouco tempo. Aprendi a me desligar um pouco dos números, sabe? Porque eu já tive a prova que eu tenho canções com mais números que não vão muito bem no povo e eu já tive canções com menos números que vão muito melhor do que as que tem mais.

Eu já vi vários artistas com mais números que os meus e a música não "chega" ao vivo igual. E já vi artista com menos números que os meus e "chegarem" muito mais. Então, a gente tem que tomar muito cuidado com números. Já foi a época em que você não tinha como fraudar ou dar uma mentida, forçar isso aí a subir. É muito massa estar na frente dos rankings, mas se na hora do palco ou da bilheteria a resposta não fora mesma, não interessa.

G1 - Todos os sertanejos costumam dizer que pegam fãs. Você está solteiro ou prefere evitar?

Gustavo Mioto - Eu acho que a gente não pode comer o pão onde ganha a carne. Acho muito perigoso isso e eu acho que não é bom misturar esse tipo de coisa. Mas, assim, são coisas do coração, né? Quando envolve coisa do coração, aí eu já não posso te prometer nada né...

Porque aí, por exemplo, pode ser que bati o olho em alguém, que bota o sorriso, pode ser que bata um cheiro. Não tenho nada contra fazer isso e não julgo quem faz, mas eu acho que deve evitar, mas aparenta ser uma coisa natural sim.

 

 

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