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Expedição de ONGs leva atendimentos médicos e cirurgias a comunidades da Amazônia

Ação conta com mais de 30 especialistas e estrutura de ponta na Região do Rio Arapiuns, em Santarém PA . Conheça as histórias de pacientes atendidos pelos ‘Expedicionário da Saúde’.

 
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No coração da Amazônia equipes de profissionais da saúde desbravam os imponentes rios para levar esperança e serviços médicos à comunidades distantes dos centros urbanos, onde o acesso a serviços básicos não é uma realidade. Encerrando o ano de 2019, os “Expedicionários da Saúde”, ONGs e parceiros desembarcaram na comunidade São Miguel, em Santarém, no oeste do Pará, para mais uma missão de amor ao próximo.

A comunidade foi escolhida por estar localizada no centro da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (Resex), no Rio Arapiuns. O lugar havia recebido a expedição há 10 anos e funciona como centro de atendimento às mais de 50 comunidades da região.

Tendas

Para receber os serviços os comunitários juntamente com a ONG Projeto Saúde & Alegria (PSA), que atua na região há mais de três décadas, se prepararam desde agosto.

Em meados do mês de novembro a equipe de logística desembarcou na comunidade com a estrutura móvel composta por duas enormes tendas, além dos demais insumos usados na ação. A montagem das estruturas de atendimentos oftalmológicos e cirurgias durou cerca de 15 dias.

Tendas montadas em Vila São Miguel, Arapiuns, para atendimentos da expedição de saúde — Foto: Drone TV Tapajós Tendas montadas em Vila São Miguel, Arapiuns, para atendimentos da expedição de saúde — Foto: Drone TV Tapajós

Tendas montadas em Vila São Miguel, Arapiuns, para atendimentos da expedição de saúde — Foto: Drone TV Tapajós

“Sabemos que é um rio de pessoas carentes, e uma ação dessas traz a certeza que muitos problemas vão ser resolvidos. Essa oportunidade está sendo dada para mais de 4 mil pessoas. É uma mutirão grandioso, é um ganho muito grande”, contou o presidente da comunidade, Darlan Silva.

Consultas e cirurgias

Nada é por acaso, tudo é pensado para o bem estar dos pacientes. Partindo dessa premissa que os trabalhos exercidos pelos profissionais são feitos. Uma semana antes de iniciar os atendimentos, médicos de diversas áreas foram a diversas comunidades da Resex fazer as pré-triagens de pacientes, identificando-os com pulseiras prioritárias.

Nesta edição da jornada médica foram disponibilizados atendimentos com pediatra, ginecologista, odontologistas, clínicos gerais, cirurgiões, oftalmologistas, entre outras especialidades, com médicos voluntários. Os serviços iniciaram no dia 30 de novembro e seguem até 7 de dezembro.

Esperança aos comunitários

O sol ainda raiava na comunidade São Miguel e os comunitários da Resex já se movimentavam para o barracão onde são feitas as consultas e triagem médica. Em cada rosto a esperança de ter o problema resolvido.

Doriedson Lima foi submetido a cirurgia de pterígio — Foto: Geovane Brito/G1 Doriedson Lima foi submetido a cirurgia de pterígio — Foto: Geovane Brito/G1

Doriedson Lima foi submetido a cirurgia de pterígio — Foto: Geovane Brito/G1

Na fila para fazer a cirurgia de pterígio (membrana que cresce nos olhos), o marítimo Doriedson Lima não escondia a sensação de felicidade. Ele já havia tentado o procedimento pela rede pública de saúde, mas não teve êxito. E pela rede privada era quase inviável fazer a cirurgia que custa cerca de R$ 2 mil cada olho.

“Se eu trabalhasse uns dois anos e pouco guardando um pouquinho de dinheiro eu talvez conseguisse pagar o procedimento. A minha visão fica um pouco embaçada, mas tenho esperança de sair daqui com ela restabelecida”, contou.

Foi nessa esperança também que aposentado José do Socorro Pereira, de 65 anos, se agarrou enfrentando uma hérnia no abdômen por 15 anos. O problema o impedia de ter uma vida saudável e a dor já era companheira diária.

No terceiro dia de ação dos “Expedicionários” o aposentado passou pelo procedimento cirúrgico. “Eu não estava querendo vir, mas minha mulher insistiu e também um amigo tinha conseguido uma vaga. Já consegui me operar e estou bem. Não existe nesse mundo médicos melhores que esses”, ressaltou.

José do Socorro passou por cirurgia de hérnia — Foto: Geovane Brito/G1 José do Socorro passou por cirurgia de hérnia — Foto: Geovane Brito/G1

José do Socorro passou por cirurgia de hérnia — Foto: Geovane Brito/G1

Saúde dos olhos

Conforme os atendimentos vão sendo executados, os profissionais vão quantificando os tipos de serviços mais procurados. A médica oftalmologista Joyce Godoy Farat contou ao G1 que a população da Resex apresenta três problemas na visão comuns à região: pterígio, catarata e presbiopia (dificuldade de enxergar perto).

Esses problemas são reversíveis através de procedimento cirúrgico ou com o uso de óculos. Esses serviços foram ofertados aos comunitários a custo zero.

Para a jovem médica, estar no meio da Amazônia e ajudar as pessoas a melhorar a saúde dos olhos é recompensador.

“É uma sensação muito boa, é muito gratificante. A gente sente a essência da nossa profissão. O que mais vale a pena é o que o paciente fala depois, o agradecimento. Fica a sensação dever cumprido”.

A dona de casa Telma Maria Nunes se consultou com um oftamologista e conseguiu o óculos. “Eu estava fazendo outros exames e essa consulta seria a última que eu iria fazer. Se eu fosse fazer em outro lugar eu iria pagar, e agora eu fiz a consulta e não paguei nada, e estou saindo com o óculos novo”, comemorou.

Dona Telma Nunes experimentando os óculos — Foto: Geovane Brito/G1 Dona Telma Nunes experimentando os óculos — Foto: Geovane Brito/G1

Dona Telma Nunes experimentando os óculos — Foto: Geovane Brito/G1

Os problemas encontrados vão dos mais simples aos mais complexos. Pescador desde criança e morador da comunidade Boa Vista do Cuçari, em Monte Alegre, Marlon Gurgel Félix, de 43 anos, perdeu totalmente a visão para a catarata em 2017.

Ainda se recuperando da cirurgia, o pescador que já havia parado de fazer as atividades diárias relembra o momento de voltar a ver novamente.

O pescador Marlon Gurgel Félix com o médico Pablo Rodrigues — Foto: Geovane Brito/G1 O pescador Marlon Gurgel Félix com o médico Pablo Rodrigues — Foto: Geovane Brito/G1

O pescador Marlon Gurgel Félix com o médico Pablo Rodrigues — Foto: Geovane Brito/G1

“A primeira coisa que vi foi a equipe ao meu lado e o jeito que eles cuidavam de mim, isso me emocionou muito. Eu não tenho palavras para expressar o que é enxergar de novo”, contou.

Ouvindo o depoimento do paciente, o oftalmologista responsável pela cirurgia falou da experiência que a expedição agrega à vida.

“O que para nós é rotineiro gera um impacto muito grande na vida das pessoas. Dá para fazer, tem que fazer acontecer essas coisas. Isso é emocionante”, disse o médico Pablo Rodrigues.

Comodidade e qualidade nos atendimentos

Os expedicionários atuam na Amazônia há mais de uma década, porém nem sempre puderam contar com uma estrutura que oferecessem maior comodidade e qualidade nos atendimentos.

Para resolver esse problema, o engenheiro mecânico Sérgio Leite começou criar protótipos de barracas diferentes das convencionais usadas nas ações até então em 2004. As novas estruturas precisavam ter eficiência térmica, economizassem energia, tivessem proteção contra água e fossem leves e fáceis de montar e desmontar.

“Me explicaram as dificuldades e com essas especificações montei os protótipos, que a partir do ano que vem serão definitivos com seis a oito barracas para todos os atendimentos”, explicou o engenheiro

As tendas foram instaladas em um campo de futebol perto da escola da comunidade, onde também foram acomodados os pacientes do pré e pós-operatório e farmácia.

15 anos de Expedições

Atendimento odontológico na expedição de saúde na região do Arapiuns — Foto: Geovane Brito/G1 Atendimento odontológico na expedição de saúde na região do Arapiuns — Foto: Geovane Brito/G1

Atendimento odontológico na expedição de saúde na região do Arapiuns — Foto: Geovane Brito/G1

A ONG “Expedicionários da Saúde” foi criada após uma visita do médico ortopedista Ricardo Affonso Ferreira e amigos a uma aldeia Yanomami no Amazonas, onde viu a necessidade do atendimento aos indígenas, em 2002. A primeira expedição ocorreu em 2004 e contou com quatro pessoas.

“Hoje nessa expedição somos 70 voluntários, entre médicos, enfermeiros, logísticos, T.I, entre outros. Pretendemos atender mais de duas mil pessoas e fazer cerca de 400 cirurgias. Desde 2006 fazemos expedições com o [Projeto] Saúde e Alegria e ampliamos muito com mais parceiros”, explicou o presidente da ONG, Ricardo Affonso.

Abaré, Projeto Saúde e Alegria e a população ribeirinha

Parceiro dos Expedicionários, a ONG Projeto Saúde e Alegria tem melhorado a qualidade de vida das comunidades ribeirinhas do oeste do Pará há décadas. Para esta jornada em São Miguel, um medo rondou planejamento das ações devido as investigações da Operação Fogo do Sairé. Entretanto, a organização não mediu esforços para não deixar as coisas desalinharem. A expedição foi mantida como planejado.

“É uma operação enorme que demanda tempo para ser organizada. É uma parceria que todo mundo faz junto para fazer uma coisa maior que cada um de nós. Somando os esforços a gente consegue trazer qualidade, saúde às populações tão lindas”, ressaltou o médico e coordenador do Saúde e Alegria, Eugêncio Scanavinno.

Ancorados em São Miguel para a expedição de saúde o barco hospital Abaré e uma embarcação de apoio do Projeto Saúde e Alegria — Foto: Geovane Brito/G1 Ancorados em São Miguel para a expedição de saúde o barco hospital Abaré e uma embarcação de apoio do Projeto Saúde e Alegria — Foto: Geovane Brito/G1

Ancorados em São Miguel para a expedição de saúde o barco hospital Abaré e uma embarcação de apoio do Projeto Saúde e Alegria — Foto: Geovane Brito/G1

Grande parceiro da expedição também é o Barco Hospital Abaré, atualmente administrado pela Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa). Na missão, a embarcação serve de consultório odontológico, ginecológico e obstétrico.

Pioneiro na modalidade de atenção básica da saúde da família em unidade fluvial, o Abaré representou um grande avanço na saúde pública, pois permitiu que os municípios da Amazônia Legal fossem atendidos por UBS fluviais.

“Graças a ele foi feito uma política pública no Brasil. Agora, sendo administrado pela Ufopa, o Abaré também leva a academia às comunidades e se criam as boas práticas de saúde. Ele se tornou um barco escola”, explicou o médico do Abaré, Fábio Tozzi.

Atendimentos oftalmológicos na expedição de saúde na região do Arapiuns — Foto: Geovane Brito/G1 Atendimentos oftalmológicos na expedição de saúde na região do Arapiuns — Foto: Geovane Brito/G1

Atendimentos oftalmológicos na expedição de saúde na região do Arapiuns — Foto: Geovane Brito/G1

A agricultora Rosarina cardoso, de 77 anos, esperava há dois anos pela cirurgia de catarata e pôde fazer o procedimento durante a expedição. Ela também já foi atendida pelas ações do PSA e Abaré.

“Essa foi a oportunidade que Deus me deu. Estou muito feliz agora, eu tinha muito medo de perder a visão e pedia para que um anjo cirurgião me operasse. Sei que o Abaré só traz médico bom”, disse.

 

 

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