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Massacre de família mórmon compõe longa história de comunidades americanas no México

Colônias começaram a surgir a partir dos anos 1880, quando os Estados Unidos aumentaram a repressão contra a poligamia; Igreja posteriormente abandonou a prática, que só é mantida por alguns grupos fundamentalistas.

 
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O assassinato de três mulheres e seis crianças de uma mesma família na segunda-feira (4) chocou o México e também chamou a atenção para uma comunidade criada por mórmons americanos que se instalaram na região há mais de cem anos.

As vítimas tinham dupla cidadania americana e mexicana e pertenciam a uma comunidade chamada Colônia LeBarón, parte de um ramo que se distanciou da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias quando esta passou a proibir a prática de poligamia.

México investiga assassinato de nove pessoas de família americana

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Autoridades e familiares suspeitam que os ataques estejam ligados a cartéis de drogas, mas ainda não está claro se foram deliberados ou se as vítimas foram mortas por engano. Os três carros em que as vítimas viajavam foram atacados por homens armados no Estado de Sonora, no norte do país.

Em um dos carros estavam Rhonita Maria Miller e seus quatro filhos, entre eles dois bebês gêmeos. Todos foram mortos a tiros, e o veículo foi incendiado com os ocupantes. As outras vítimas são Dawna Ray Langford e seus dois filhos, que viajavam no segundo carro, e Christina Langford Johnson, que estava no terceiro veículo. Sete crianças escaparam, cinco delas feridas.

Refúgio

A Colônia LeBarón foi fundada na primeira metade do século passado por Alma Dayer LeBarón, mórmon que foi excomungado por praticar poligamia. Mas a presença de mórmons americanos no norte do México é bem mais antiga. Eles começaram a chegar no fim do século 19, quando o governo americano proibiu a poligamia — que na época era praticada pelo mórmons.

"As colônias iniciais no norte do México surgiram nos anos 1880, durante o auge da repressão à poligamia nos Estados Unidos, quando mais de mil homens e mulheres foram presos", diz à BBC News Brasil o historiador W. Paul Reeve, professor de Estudos Mórmons da Universidade de Utah.

Com medo de serem presos por causa de sua religião, milhares de mórmons deixaram os Estados Unidos e se refugiarem no sul do Canadá ou no norte do México, onde fundaram comunidades agrícolas nos Estados fronteiriços de Chihuahua e Sonora, em terras compradas pela liderança da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.

"O México na época era contra a poligamia, mas seus líderes decidiram ignorar (a prática pelos mórmons). Estavam mais interessados em ter pessoas para ocupar sua fronteira norte do que em perseguir polígamos", ressalta Reeve.

Entre as famílias que se estabeleceram na região na época está a de Miles Park Romney, bisavô do senador republicano e ex-candidato à Presidência Mitt Romney. O pai do senador, George Romney, nasceu em uma dessas colônias.

Segundo Reeve, essas comunidades foram bem-sucedidas até que, em 1912, em meio à Revolução Mexicana, os colonos mórmons foram obrigados a voltar para os Estados Unidos.

Na época, porém, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias já não aceitava mais a poligamia e ameaçava com excomunhão quem insistisse na prática.

De acordo com Reeve, a maioria dos que voltaram aos Estados Unidos permaneceram no país, já que, como sua religião havia renunciado à poligamia, não corriam mais risco de serem presos. No entanto, alguns decidiram retornar ao México após a Revolução Mexicana e retomar suas terras.

Reeve diz que muitos descendentes desses que retornaram ainda estão no México. "São membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, com sede em Salt Lake City (nos Estados Unidos), e não praticam poligamia", salienta.

Grupos fundamentalistas

Mas outras famílias mórmons no norte do México continuaram a aderir a poligamia, mesmo após a proibição pela Igreja. Estas, ressalta o historiador, foram excomungadas e não são consideradas membros da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e acabaram criando seus próprios grupos religiosos.

"Estes são o que chamamos de mórmons fundamentalistas. Para eles, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias se dobrou a pressões políticas ao abandonar a poligamia", afirma Reeve.

"Esses grupos fundamentalistas consideram a poligamia um princípio fundamental de sua versão do mormonismo. Eles continuam a aderir à prática e dizem que a igreja em Salt Lake City cometeu um erro ao abandonar a poligamia."

Conforme o historiador, há grupos fundamentalistas espalhados pelo Canadá, Estados Unidos e México, entre eles a família LeBarón.

Mas Reeve observa que esses grupos representam uma parcela muito pequena entre os mórmons. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no México tem mais de 1 milhão de integrantes no México e 16 milhões ao redor do mundo.

Violência

A Colônia LeBarón tem cerca de 3 mil membros, entre os quais alguns ainda praticam poligamia.

A comunidade costuma se posicionar contra os cartéis de drogas que atuam na região e já foi alvo de violência no passado.

Dez anos atrás, um jovem membro da família foi sequestrado. A comunidade se negou a pagar o resgate, temendo que isso incentivasse novos sequestros, e o refém acabou sendo libertado. Mas pouco tempo depois, seu irmão e um cunhado foram assassinados em retaliação ao ativismo da família contra os cartéis.

Em entrevistas à imprensa mexicana na terça-feira (5), um dos familiares das vítimas, Julian LeBarón, disse que a família havia recebido ameaças.

Autoridades de Chihuahua e Sonora anunciaram uma investigação sobre os crimes e enviaram forças de segurança adicionais à área.

Os assassinatos de segunda-feira (4) ocorrem em um momento em que o México enfrenta um aumento na violência ligada a cartéis de drogas.

No mês passado, depois que Ovídio Guzmán López, filho do traficante Joaquín Guzmán, o El Chapo, foi detido, membros do cartel de Sinaloa atacaram forças de segurança do governo durante horas nas ruas da cidade de Culiacán, no norte do país. O governo acabou sendo obrigado a libertar Ovídio Guzmán para evitar que o confronto se agravasse.

Na terça-feira (4), o presidente americano, Donald Trump, disse no Twitter que os Estados Unidos "estão prontos" para ajudar o México a combater a violência provocada pelos cartéis e a "fazer o trabalho de forma rápida e eficiente".

"Os cartéis se tornaram tão grandes e poderosos que você precisa às vezes de um exército para derrotar um outro exército", disse Trump. O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, disse que o México vai agir "de forma independente e afirmando sua soberania".

 

 

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