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Músico americano de 95 anos mostra em SP legado de Sun Ra, o '''jazzista de outro planeta'''

A Sun Ra Arkestra, liderada hoje por Marshall Allen, toca em São Paulo terça e quarta-feira em festival de jazz do Sesc com ingressos esgotados.

 
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Difícil haver no jazz história mais fantástica (em mais de um sentido) do que a trajetória do norte-americano Sun Ra (1914-1993). O pianista nascido no Alabama marcado pela segregação racial criou uma abordagem musical diferente de tudo o que era feito nos anos 1950 (mas assustando assim muitas plateias da época). Promoveu performances jazzísticas que uniam canto, teatro, dança e acrobacias. E sustentou categoricamente, até a morte, que havia nascido em Saturno e que estava na Terra para elevar a humanidade para além de conceitos de "vida e morte". E tudo através da música.

Essa estranha e fascinante narrativa está sendo apresentada numa turnê brasileira que tem dois shows com ingressos esgotados no Sesc Pompeia de São Paulo, nesta terça (8) e quarta-feira. Sem Sun Ra, a direção musical (e espiritual) do grupo está a cargo do saxofonista Marshall Allen, de 95 anos e há 60 na Arkestra, a banda que acompanhou o pianista e sustenta hoje seu legado em turnês pelo mundo.

Em um hotel de São Paulo, o quase centenário Marshall Allen falou ao G1 sobre como foi difícil atingir o estágio em que conseguiu entender os conceitos musicais e filosóficos de Sun Ra, que forma um dos pilares fundamentais do movimento afrofuturista e influenciou artistas muito diferentes entre si como a banda de rock Sonic Youth e a cantora de R&B Solange, irmã de Beyoncé. Aparece até como coautor de uma faixa de Lady Gaga por causa de um sample em "Venus".

Allen conta que lutou na 2ª Guerra Mundial e, depois de impressionar um general, conseguiu estudar por 2 anos em um conservatório em Paris. De volta aos Estados Unidos, envolveu-se na cena de jazz de Chicago e conheceu Sun Ra.

"Trabalhava em um laboratório de fotografia, polindo lentes de câmera, e um dia, fui a uma loja de discos. O atendente me recomendou um disco: "Você conhece isso?". Levei pra casa, escutei em casa e falei: 'O que é isso????' Era Sun Ra". Allen soube que o autor do atordoante disco procurava novos talentos para sua banda. Foi aceito, mas o começo foi difícil.

"No início, eu ficava assim: 'Não sei do que ele tá falando, não entendo esse papo de espaço, mas vou aproveitar essa chance, vou ficar na banda'. Mas não era bom, Sun Ra era muito disciplinador e eu pensava 'pô, eu é que fui pro Exército, não esse cara'. O retorno que eu tinha dele era sempre assim: 'Você toca bem, você toca no tom certo, com sentimento, mas não é o que eu quero'. Isso destruiu o meu ego, isso fez me sentir muito mal."

É que as ideias de Sun Ra eram muito avançadas para a época. O som passeava pela dissonância, procurava caminhos bem longe da obviedade e o resultado era um grande desconforto em muitos ouvintes. "Na época, o jazz e as big bands de Duke Ellington e Count Basie ainda faziam sucesso. As pessoas estavam ligadas em dixieland, no som de Nova Orleans, e de repente Sun Ra aparece com um som que parecia 'bêbado', muito diferente de tudo aquilo. Sun Ra dizia que era música para a próxima geração. Para o século 21. O que nós proporcionávamos era um gostinho para as pessoas daquela época. A gente sabia tocar o jazz daquela época, mas expandia as fronteiras."

Marshall Allen relata seu próprio périplo até captar a mensagem de Sun Ra: "Ficava confuso e magoado. Chorava. Até que eu acordei um dia e percebi que tinha que ficar com a boca fechada, ser humilde e talvez aí aprender algo. Levou 15 anos até entender o que ele queria [risos]. Aí ele me fala: 'Bom, isso aí é só a parte jardim de infância da minha música' [mais risos].

"Ele conhecia a sua personalidade, ele sabia do seu potencial. Ele me fez entender que o sentido de tudo aquilo é que a gente nunca sabe nada", afirma Allen, em um eco de ideias socráticas.

Moda e visual

A força de Sun Ra contava também com elementos estéticos. Os integrantes da banda se vestiam e ainda se vestem com um figurino que evocava o Egito dos faraós mas em uma abordagem futurista. É possível perceber a influência do visual de Sun Ra e sua trupe em trabalhos gráficos e de moda de artistas envolvidos com o afrofuturismo, um movimento que se fundamenta nos mitos e cosmologia de raízes africanas, coloca o negro como protagonista e propõe um futuro diferente do passado e presente de opressão.

Mas Marshall Allen diz que são as ideias de Sun Ra sobre a vida que ainda ressoam nele aos 95 anos - e que poderia passar tranquilamente por alguém de 30 anos a menos. "Qual o segredo pra parecer mais jovem que os meus 95? Calma. Tudo o que eu sei é que nada sei. É preciso ser organizado e deixar o ego de lado. Eu tenho essa atitude que eu preciso sempre aprender. E quando faço algo, eu apenas faço e espero que tudo flua e saia naturalmente. Eu toco a minha música para o meu bem estar." Vai dizer que a filosofia de Sun Ra não faz sentido?

 

 

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