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Depressão e ansiedade: a luta de quem sofre silenciosamente

Muitas pessoas que sofrem com algum transtorno mental acabam guardando os sentimentos para si, o que faz com que o adoecimento piore cada vez mais.

 
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Pensar em "salvar o mundo", se realizar profissionalmente, ser mais produtivo, e ao mesmo tempo, não ter ânimo e não conseguir fazer nada. Pouco tempo depois, pensar em desistir de tudo, não enxergar sentido na vida e achar que aquilo nunca vai passar. Ter medo de tudo que vai fazer e, na maioria das vezes, pensar no pior. Pessoas que têm transtorno de ansiedade sabem bem como é isso.

Em alguns casos, a pessoa não sente vontade de se relacionar, nem cumprir atividades simples e achar que todos estão contra ela. Muitas vezes, trata-se da depressão que, se não tratada, faz com que a pessoa sinta vontade de cometer o suicídio.

A doença pode ser adquirida por um ou diversos fatores ao longo da vida de uma pessoa ou se ela tem predisposição, que provavelmente é a genética. Em alguns casos, a depressão pode ser pelas duas coisas.

"Vamos acumulando situações de toda a vida, desde a infância, adolescência, que ficam mal resolvidas, inacabadas, geram frustrações e dizemos que vamos resolver depois. Vai passando e um dia, por uma pequena frustração, mais simples que seja, o baú não aguenta e explode", esclarece a psicóloga Thayanne Branches.

Quem sofre de ansiedade vive com o medo de cometer erros nas atividades do cotidiano, o que acaba prejudicando em tarefas rotineiras. Um simples problema pode aparentar uma grande tempestade dentro do ser humano. O sentimento de inutilidade é constante.

Quando a sensação surge, às vezes é incontrolável. O coração acelera cada vez mais, a respiração fica ofegante, há falta de ar, aumento do suor, tremores nas mãos e em outras partes do corpo, sensação de fraqueza, cansaço, náusea, logo vem a tontura e a vontade de chorar. Da primeira vez, é o pior momento, ainda mais quando a pessoa não sabe o que está acontecendo. Os sintomas diferenciam-se de pessoa para pessoa.

Em um momento, achar que é feliz, sentir êxtase, mas ficar com medo de tudo desabar, pois já é acostumado a sentir o baque duas vezes pior e quando acontece, dura bem mais. O depressivo já não consegue ver sentido em nada e sente frequentemente o mundo desmoronar.

Um relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstra que o Brasil é o país com mais pessoas deprimidas e ansiosas da América Latina.

As pessoas que adquirem ou têm pré disposição para algum transtorno mental na maioria das vezes tem receio em contar sobre o que sente por medo do julgamento das pessoas.

Pessoas que sofrem com distúrbios de depressão apresentam uma tristeza profunda. Edivânia de Oliveira passou por um período complicado com depressão e não falava para ninguém.

"Nem todo mundo sabe como reagir em uma situação dessas. As pessoas não conhecem como lidar. Eu sentia medo e vergonha do que iam pensar" .

Ela acredita que no seu caso, o distúrbio tenha surgido por causa da solidão, já que começou a ocorrer depois que passou a morar sozinha, longe da família, e sempre foi acostumada no meio de muitas pessoas dentro de casa. "Teve um momento que eu entendi para viver no meio das pessoas". Foram quatro meses o período mais agravante.

Ela ficava mais ruim no período da noite, tinha medo do escuro e não conseguia dormir. A pressão subia muito. Em um determinado momento, quando passou com uma cardiologista, a profissional garantiu que não havia nada de errado com o coração e o problema era psicológico.

Chegou um momento em que ela resolver contar para a família e os amigos mais próximos, que a ajudaram. A recuperação de acordo com ela, dependeu muito do apoio das pessoas.

Os colegas de trabalho nunca percebiam que havia algo de errado, já que Edivânia sentia os sintomas, na maioria das vezes, à noite. "Eu conseguia trabalhar, somente duas vezes que eu cheguei a chorar, do nada. Mas eu tentava ao máximo não demonstrar [...] As pessoas te veem normal, trabalhando, acham que você está bem", diz ela.

Edvânia fez dois anos de terapia, tomou medicamentos e fez massagem. Até hoje, após quatro anos de ter vencido a depressão, ela ainda retorna ao psicólogo quando acha que há necessidade.

Pessoas que não necessariamente foram diagnosticadas com algum tipo de distúrbio podem sentir os mesmos sintomas que, se não tratados, acabam evoluindo para uma doença.

A ansiedade ou depressão podem surgir por vários fatores ao longo da vida de uma pessoa — Foto: Depositphotos A ansiedade ou depressão podem surgir por vários fatores ao longo da vida de uma pessoa — Foto: Depositphotos

A ansiedade ou depressão podem surgir por vários fatores ao longo da vida de uma pessoa — Foto: Depositphotos

Aline Lima, de 26 anos, passou sentia vários sintomas da ansiedade e resolveu fazer terapia. Os pensamentos que ela tinha são cada vez mais frequentes na sociedade moderna, por causa das pressões do dia a dia.

"São pensamentos de achar que é a vida de todo mundo está andando e a minha está parada, de rotulação, achar que eu não sou capaz de fazer alguma coisa. [...] Afirmações do tipo: 'Eu deveria ser uma pessoa melhor, ter aquilo, deveria ter feito aquilo, pensamentos disfuncionais", conta.

Muitas vezes esses pensamentos acabam atrapalhando as atividades da pessoa e o relacionamento com os outros.

"Tenho pensamentos de generalizar tudo, leitura mental, de fazer leitura do pensamento alheio, e nunca é bom, raciocínio emocional, quando eu não sou respondida da forma que eu esperava e crio minha versão. [...] São coisas que não são reais, mas é mais forte que eu. Naquele momento, é muito real".

Outras vezes, Aline diz que começa a lembrar de todas as coisas ruins que já aconteceu e traz para o presente, em sua mente, fazendo com que se torne real, ou então pensa que alguma coisa ruim vai acontecer.

Além disto, a vontade de mudar se contrapõe com a indisposição em fazer algo. "Tem dias que eu acordo sem energia. Eu não durmo a noite e durante o dia quero dormir. Não tenho energia para nada e algumas coisas que são características minhas e se potencializam numa crise de desistir das coisas", explica.

A ansiedade se torna patológica quando limita as atividades do dia a dia. “A pessoa sente muitas vezes um medo excessivo, sensação de que as coisas sempre dão errado e uma preocupação constante com coisas ou situações que antes não causavam nenhuma instabilidade emocional”, explica a psicóloga Edilmara Rocha.

Muitas pessoas já tiveram alguns desses pensamentos em um determinado momento da vida. Caso isso permaneça durante um longo tempo, é preciso procurar ajuda.

A psicóloga Thayanne Branches explica que o adoecimento se dá pela quantidade de sinais e sintomas e o tempo que eles estão presentes e interferem no cotidiano que, se não tratados, podem evoluir para uma depressão, por exemplo.

Entre eles estão: tristeza profunda, apatia, pessimismo, hipersonia ou insônia, perda ou aumento de apetite, irritabilidade, medos que antes não existiam, dificuldade de concentração, esquecimento, fala de motivação para desenvolver atividades do cotidiano, ausência de prazer e oscilações de humor, que variam de pessoa para pessoa.

Os sintomas podem se manifestar fisicamente, com dores de barriga, má digestão, azia, tensão na nuca e nos ombros, pressão do peito e dores no corpo.

Uma pessoa comunicativa ficar mais reservada pode ser um dos sinais de que está acontecendo algo errado. A depressão, em um estágio mais avançado, pode fazer com que a pessoa comece a ter pensamentos suicídios, até que vá criando coragem para executar o ato, por não conseguir enxergar alternativas que a façam se sentir melhor.

A dificuldade em contar para os amigos e a família influencia para a piora da doença. Outras vezes, ao invés de falar, a pessoa demonstra sinais de que precisa de ajuda, mudando o comportamento, baixando o desempenho nas atividades, etc.

"A gente conhece o perfil da pessoa, e quando elas alteram de modo que não corresponda ao processo saudável, está sinalizando, meio que inconscientemente, que precisa de ajuda. As vezes não é rápido. Se você percebe que a pessoa não está bem, se afastou, não abandone. Tente ajudar, lógico que respeitando o espaço. Preste atenção nas mudanças que estão interferindo na qualidade de vida da pessoa", pede Thayanne.

Psicóloga Thayanne Branches alerta que é preciso que as pessoas se atentem para a mudança de comportamento das outras e ofereçam ajuda — Foto: Rafael Ferreira Psicóloga Thayanne Branches alerta que é preciso que as pessoas se atentem para a mudança de comportamento das outras e ofereçam ajuda — Foto: Rafael Ferreira

Psicóloga Thayanne Branches alerta que é preciso que as pessoas se atentem para a mudança de comportamento das outras e ofereçam ajuda — Foto: Rafael Ferreira

Marcus Vinícius Ferreira, há quatro anos, passou por um período complicado com ansiedade, Transtorno Compulsivo Obsessivo (TOC) e início de depressão. “Eu tinha muito medo, relacionado ao pensamento do TOC [...] Eu tinha pensamentos e movimentos compulsivos. Pensava que se eu deixasse de colocar um lápis na mesa, por exemplo, aquilo era errado e se eu não fizesse, algo de ruim ia acontecer”.

Segundo ele, a piora aconteceu quando passou a morar em outra cidade, longe dos pais, e se sentia sozinho e mal, já que passou a infância toda em outro local. Marcus morava com o irmão, mas ele passava a maior parte do tempo ocupado.

Em um determinado período, um primo faleceu, e ele foi para perto da família e viu todos sofrendo, o que o fez piorar ainda mais. Depois, um avô também faleceu.

Marcus disse que quando tentou comentar com algumas pessoas próximas sobre o que estava passando, elas achavam que era frescura e não davam muito atenção, até que um outro irmão tentou cometer suicídio. Marcus piorou e partir de então as pessoas ao redor começaram a se atentar mais sobre o assunto.

“Era em um momento em que eu estava muito ruim do TOC. Eu passei acordar uma hora antes para ir para o colégio, para dar tempo de chegar, porque eu passava meia hora para calçar o sapato. Eu tinha pensamentos de que se eu não fizesse da maneira correta, algo ruim iria acontecer, alguém da minha família ia morrer”, relatou.

O jovem conta que passava a noite acordado, mesmo sem mexer no celular, ficava estressado e não conseguia se concentrar em nada. Ele relatou que haviam muitas noites em que ele deitava e levantava várias vezes da cama, durante a noite toda, pois em sua mente, não estava deitando da maneira correta, e que era incontrolável.

Eu pensei muito em suicídio. Sentava na beira da cama e ficava olhando a escápula, buscando razões pra eu fazer aquilo, como uma fuga [...] Eu achava que não ia aguentar. — Marcus Vinícius

Ele começou a fazer terapia. Fez pouco mais de um ano de tratamento. “Eu anotava movimentos, técnicas, dicas de como combater aquilo. [...] Comecei a orar mais e procurava motivos pra não fazer, que era o sofrimento que a minha família ia ter, meio que às vezes eu culpava eles por não verem o que eu estava passando, mas ao mesmo tempo, eu me trancava no mundinho onde eu vivia, e não contava o que eu sentia”.

De acordo com ele, a superação fez com que ele ficasse forte, pois pensa que nada pode lhe abalar tanto como o ele passou. “Foi onde eu mais cresci, aprendi a ser forte, a encarar problemas com cara e coragem, porque dificilmente agora alguma coisa vai me abalar mais que aqueles tantos anos”.

Edilmara Rocha ressalta a importância da psicoterapia para ajudar no processo de reflexão e autoconhecimento, com olhares sobre quais as situações que geram crise, de modo com que o paciente saiba lidar com os momentos de incapacidade.

“A pessoa poderá reconhecer a si enquanto promotora do seu autocuidado bem como, identificar modos de lidar e enfrentar os possíveis eventos que geram a ansiedade. Além disso, é importante ressaltar que cada pessoa vivencia de uma forma, o que equivale dizer que não se pode comparar casos e muito menos afirmar que é frescura ou falta do que fazer”, explica.

É essencial se conhecer, buscar ajuda e procurar fazer um tratamento o mais rápido possível. Atividades físicas também são importantes.

"Todos nós podemos e devemos buscar a psicoterapia como recurso de autoconhecimento, bem-estar e saúde. Você pode tratar os problemas com um olhar especializado, com técnicas, embasamento teórico, e em que o profissional vai trazer uma visão sobre suas demandas sem julgamento”, garante Thayanne Branches.

 

 

 

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