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Registros de canavieiros nordestinos esquecidos em sótão de Londres reaparecem após 3 décadas

Repórter cinematográfico Paulo Pimentel fotografou trabalhadores da Zona da Mata nos anos 80. Ele encontrou em 2016 os negativos, que viraram exposição na Embaixada do Brasil em Londres.

 
 -  Foto da exposição   39;Canavieiros  39; de Paulo Pimentel  Foto: Paulo Pimentel
Foto da exposição 39;Canavieiros 39; de Paulo Pimentel Foto: Paulo Pimentel

As rugas são as mesmas há 31 anos. Foi a cana que manteve seu Antônio igual por tanto tempo. Se ele bebia, é difícil dizer. Só sabemos com certeza que tomava água durante o trabalho, assim como os colegas, em garrafões plásticos de produtos de limpeza que as mulheres reaproveitavam. Mas seu Antônio era, de certa forma, movido a álcool, o combustível produzido com a cana-de-açúcar que ele colhia todas as manhãs.

Desde 1987, nunca lavou as mãos pretas, não fechou mais do que um botão da camisa - o segundo do pescoço para baixo –, não tirou da cabeça o chapéu de palha com um rasgo simpático na frente e não aparou o bigode que faz sombra para algo que tanto pode ser um sorriso quanto um lamento permanente nos lábios.

Quando foi encontrado no porão de uma casa em Londres, há dois anos, seu Antônio nem sonhava que ganharia toda aquela atenção na entrada do prédio bonito que fica a uma breve caminhada de distância do Parlamento Britânico e do Palácio de Buckingham, onde mora a rainha Elizabeth II. Da mesma forma, os conterrâneos dele não imaginavam que viriam a ser libertados, comentados e celebrados nesse pedaço nobre de chão tão distante daquele onde nasceram.

“Antes eles eram invisíveis, agora não são mais. Todo mundo pode ver essas pessoas.”, conta Paulo Pimentel, o jornalista que encontrou seu Antônio e os outros enquanto limpava o sótão de casa.

Um dos primeiros a acenar para Paulo foi seu Francisco, mais um jovem que, assim como seu Antônio, envelheceu antes da hora e depois ficou preservado para sempre naquele cômodo cheio de tranqueiras. Ao contrário de seu Antônio, no entanto, seu Francisco não permaneceu completamente parado. Ora estava naquela posição de aceno com os olhos espertos que acompanhavam para qualquer lado quem o encarava, ora usava o facão para separar da terra queimada um pedaço de cana.

Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel) Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel)

Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel)

Hoje, quem respira diante seu Francisco ainda sente um pouco do cheiro das cinzas que grudaram nas calças e nos pés descalços do homem há quase três décadas. O sol nordestino também queima um pouco os cabelos de quem o encara sem vestir um chapéu de palha boa. E, se ficar em silêncio, o visitante pode chegar a ouvir a música que seu Francisco cantava por dentro para se sentir mais vivo a cada golpe que dava na cana antes de levar para casa o pão.

Algumas famílias, naquela época, nem esperavam a comida chegar. Iam juntas para o canavial. No meio das cobras, das cinzas e do sol, tinha criança cortando, colhendo, carregando, pensando, tentando entender. Qual é o tamanho da sorte de nascer já com uma profissão naquele pedaço fértil de chão? Pai e filho, mãe e filha, mãe e filho, irmãos pequenos. Idade mínima não existia. Com pressa, algumas crianças iam trabalhar até dentro da barriga da mãe. Era uma gestação orgulhosa na lavoura que levava o Brasil para a frente.

O governo incentivava a produção de álcool combustível para diminuir a dependência da importação de petróleo. Para isso, oferecia incentivos fiscais e empréstimos bancários com juros abaixo da taxa de mercado para os produtores de cana-de-açúcar. Seu Antônio, seu Francisco e a colega dona Maria eram alguns dos sortudos que trabalhavam para os fazendeiros e recebiam, em vez de salário, um crédito para comprar alimentos em determinados armazéns. É verdade que, mesmo só trabalhando e comprando comida, muitos acumulavam um débito eterno com os patrões. Mas isso, por outro lado, facilitava a permanência definitiva deles naquele emprego. Quem poderia reclamar?

Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel) Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel)

Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel)

No meio da expressão cansada de alguns, às vezes até escapava algo que lembrava alegria. Mas não de dona Maria. Ela mantinha a seriedade, que não era mulher de tumultuar o local de trabalho. Outros, porém, escancaravam a boca quando se sentavam na pilha de cana para descansar um pouco. Faltava roupa sem furos, faltava calçado, chegava a faltar dente, mas não faltava sorriso. Era uma das coisas mais lindas do mundo.

O capataz bem vestido em cima do cavalo não se conformava. Como era possível?

“Como é possível?”, ele se pergunta ainda hoje. Mesmo depois de passar 31 anos esquecido junto com todos, ele não foi capaz de entender.

Exposição

Paulo Pimentel é jornalista e fotógrafo. Trabalha como repórter cinematográfico na TV Globo e vive em Londres desde 1981, quando foi transferido como correspondente para a Europa, África, Ásia e Oriente Médio. Pelas lentes dele chegaram a milhões de brasileiros as imagens de alguns dos maiores acontecimentos mundiais do fim do século 20, como a queda do muro de Berlim.

Em 1986, enquanto passava férias na casa do amigo Chico José, em Pernambuco, o jovem Paulo se encantou ao passar pela estrada e ver as silhuetas distantes de pessoas no alto do morro. Voltou no ano seguinte, câmera em punho, para registrar aquelas vidas dependentes do corte de cana na Zona da Mata, entre Pernambuco e Alagoas. Convenceu, na lábia, os tímidos canavieiros a se deixarem fotografar.

Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel) Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel)

Foto da exposição 'Canavieiros' de Paulo Pimentel (Foto: Paulo Pimentel)

O resultado é um ensaio monocromático que acumula todas as cores do nordeste brasileiro daquela época. Os negativos que Paulo reencontrou no sótão em 2016 passaram por um processo cirúrgico de laboratório para revelar de novo a existência daquelas pessoas. De invisíveis, os canavieiros viraram obra de arte, ganharam uma exposição própria na Embaixada do Brasil em Londres e não deram conta de receber todas as pessoas que quiseram participar da estreia lotada.

Acostumado a contar histórias com os olhos, Paulo não anotou os dados dos canavieiros. Seu Antônio, seu Francisco e dona Maria são apelidos que ele inventou em casa, pois precisava chama-los de alguma coisa quando conversavam. Na exposição, o fotógrafo abriu mão de usar esses nomes. Melhor não correr o risco de desagradar seus velhos amigos, caso eles apareçam.

Se alguém tiver contato com seu Antônio, faça a gentileza de passar o endereço abaixo. Talvez ele tenha mais rugas, mas vai ser fácil reconhece-lo. Dê um abraço longo, um gole d’agua fresca num copo de vidro, diga que ele e os outros continuam lindos. E que o Paulo tem muita, muita saudade.

Exposição “Canavieiros”

  • Onde: Embaixada do Brasil em Londres: 14-16 Cockspur St. SW1Y 5BL.
  • Quando: Segunda a sexta, das 10h às 18h, até 22/08.

 

 

 

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